O “efeito expresso”: a ciência por trás da corrida ao banheiro após o café

Por: Lucas Gravatá

 Foto: dusan petkovic

Para milhões de pessoas, o ritual da manhã é sagrado: uma xícara de café fumegante para despertar o cérebro. No entanto, para cerca de 29% da população, segundo estudos da Sociedade Britânica de Gastroenterologia, o despertador não toca apenas na mente, mas também no intestino.

O fenômeno, popularmente conhecido como “o efeito do café”, é alvo de investigações científicas que tentam desvendar por que a bebida acelera o sistema digestivo em tempo recorde.

Ao contrário do que dita o senso comum, a culpa não é apenas da cafeína. Cientistas e gastroenterologistas apontam que a explicação reside em uma complexa reação química e hormonal que transforma o café em um potente estimulante gástrico.

Pesquisadores da Universidade do Texas (UTMB) apresentaram, em um encontro da Semana de Doenças Digestivas, um estudo realizado com ratos que comprovou que o café — independentemente de ter cafeína ou não — aumenta a mobilidade muscular do intestino.

O café estimula a liberação de dois hormônios fundamentais:

  1. Gastrina: Produzida no estômago, ela acelera as contrações do cólon.
  2. Colecistoquinina (CCK): Libera enzimas digestivas e bile, intensificando o processo de digestão.

De acordo com um estudo clássico publicado na revista Gut, o café pode estimular a atividade motora do cólon distal em apenas quatro minutos após a ingestão. É um tempo curto demais para que a bebida tenha sido digerida e chegado ao intestino, o que sugere a existência de um “eixo cérebro-intestino”: o estômago detecta o café e envia um sinal nervoso imediato para que o cólon “abra espaço”.

Desmistificando a cafeína

Um ponto que surpreende muitos entusiastas da bebida é que o café descafeinado também possui efeito laxante, embora menos intenso que o regular. Isso reforça a tese de que outros compostos químicos presentes no grão, como os ácidos clorogênicos, desempenham um papel crucial na acidez do estômago e na velocidade do esvaziamento gástrico.

“O café é uma mistura complexa de mais de mil compostos químicos. Isolar a cafeína como única culpada é um erro comum”, explica o Dr. Satish Rao, gastroenterologista da Universidade de Augusta, em entrevista ao The New York Times.

Por que nem todos sentem?

Se você é do grupo que toma três xícaras e não sente nada, a explicação pode estar na genética e no hábito. O estudo da Sociedade Britânica de Gastroenterologia revelou que o efeito é mais comum em mulheres e em pessoas que não consomem a bebida de forma crônica, sugerindo que o corpo pode desenvolver certa tolerância aos estímulos químicos do café ao longo do tempo.