Historiador diz que disputa entre EUA e China vai definir a ordem global nas próximas décadas

Por: Lucas Gravatá

Foto: Divulgação

A rivalidade entre Estados Unidos e China deixou de estar restrita ao comércio e passou a abranger áreas como tecnologia, inteligência artificial (IA), soberania digital e segurança nacional. A avaliação é do historiador britânico Niall Ferguson, que participou de um painel da Expert XP 2026 ao lado do CIO da XP Inc., Artur Wichmann.

Durante o evento, Ferguson afirmou que a competição entre as duas potências deve moldar o cenário internacional nas próximas décadas. “Hoje sabemos que estamos caminhando para uma segunda Guerra Fria entre duas superpotências, os Estados Unidos e a China. Essa será a relação geopolítica que definirá, pelo menos, os próximos 50 anos”, afirmou.

O historiador também defendeu que a história não segue padrões previsíveis, mas é marcada por acontecimentos inesperados, como crises financeiras, pandemias e conflitos, capazes de alterar rapidamente o equilíbrio global.

Inteligência artificial amplia disputa

Na avaliação de Ferguson, a inteligência artificial deixou de ser apenas um tema ligado à inovação e passou a ocupar posição estratégica para os governos. Segundo ele, os Estados Unidos passaram a tratar o desenvolvimento da tecnologia como questão de segurança nacional, ao mesmo tempo em que cresce a concorrência com os modelos chineses.

“Os dias da regulação zero para a inteligência artificial acabaram”, disse.

Para o historiador, empresas de diferentes países precisarão definir qual ecossistema tecnológico pretendem adotar. “Toda empresa, inclusive no Brasil, terá de decidir como incorporar IA ao seu negócio e se seguirá o caminho americano ou o chinês.”

Ele também destacou que a soberania digital dependerá da capacidade de cada país desenvolver infraestrutura própria para armazenamento de dados, fabricação de semicondutores e modelos de inteligência artificial.

“Não é possível ter soberania digital sem provedores próprios de nuvem, fabricantes de semicondutores e modelos próprios de linguagem. No fim das contas, teremos um mundo da inteligência artificial dominado por duas superpotências”, afirmou.

Taiwan concentra maior risco

Ferguson apontou o Estreito de Taiwan como o principal foco de instabilidade geopolítica da atualidade. Segundo ele, a importância da ilha na produção mundial de semicondutores faz com que qualquer interrupção nas exportações tenha potencial para afetar a economia global.

Na visão do historiador, o maior risco não seria uma invasão militar em larga escala, mas uma estratégia gradual da China para ampliar seu controle sobre o comércio e as exportações da região.

“Esse pode ser o momento mais perigoso da Segunda Guerra Fria”, declarou.

China e Rússia enfrentam desafios

Ao analisar o cenário internacional, Ferguson afirmou que a capacidade da China costuma ser superestimada e argumentou que o país enfrenta problemas estruturais, como a redução da população e a concentração de poder político.

“Esses sistemas não são fortes. Na verdade, são bastante frágeis”, disse.

Sobre a Rússia, o historiador avaliou que a guerra na Ucrânia evidencia dificuldades militares e econômicas enfrentadas pelo país.

“O que estamos testemunhando não é o renascimento da Rússia imaginado por Vladimir Putin, mas os estertores finais do Império Russo”, afirmou.

Expert XP 2026

O painel integra a programação da Expert XP 2026, que acontece entre os dias 23 e 25 de julho. Em sua 16ª edição, o evento reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir os principais desafios econômicos, tendências globais e perspectivas para os mercados financeiros.