Abuso sexual infantil na internet atinge 20 milhões de jovens em 21 países, alerta Unicef

Relatório analisou relatos de jovens de 12 a 17 anos em 21 países; no Brasil, quase 3 milhões afirmaram ter sido vítimas desse tipo de violência

Por: Redação Alvoroço

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Cerca de 20 milhões de crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos foram vítimas de algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia ao longo de um ano, segundo relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo “Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil” reúne dados de 21 países.

A pesquisa foi elaborada a partir de entrevistas realizadas entre 2020 e 2025. Segundo as estimativas, aproximadamente 9 milhões de menores foram pressionados a participar de conversas de cunho sexual ou a enviar imagens íntimas contra a vontade. Outros 4 milhões tiveram imagens ou registros íntimos divulgados, enquanto 15 milhões foram expostos a conteúdos sexuais sem consentimento.

O Unicef avalia que os números podem ser ainda maiores. Mais de 40% dos episódios mencionados durante a pesquisa nunca haviam sido comunicados anteriormente pelas vítimas. Entre os motivos apontados está a falta de informação sobre onde e com quem buscar ajuda.

Redes sociais concentram maioria dos casos

As plataformas digitais aparecem em cerca de 60% das violações identificadas. Entre os serviços citados estão Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp.

Os jogos on-line foram associados a 14% dos casos. Segundo o levantamento, as características desses ambientes, que permitem interação constante entre usuários, podem facilitar a criação de vínculos de confiança utilizados posteriormente pelos agressores.

A maior parte das vítimas, 57%, afirmou conhecer o autor da violência. Nesse grupo estão familiares, conhecidos, amigos e parceiros românticos.

Em 38% dos relatos, o primeiro contato com o agressor ocorreu pela internet. Perfis falsos e conversas privadas aparecem entre os recursos utilizados para estabelecer contato com os menores.

“Essas experiências causam profundo desgaste emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber ao certo onde procurar ajuda. Nós não podemos ignorar isso”, alertou a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell.

Brasil

No Brasil, 19% dos jovens entrevistados disseram ter passado por algum tipo de violência sexual relacionada à tecnologia. O percentual corresponde a quase 3 milhões de pessoas. A taxa de denúncia, porém, ficou abaixo de 1%.

O ambiente virtual concentrou 55,5% dos casos relatados no país. Em seguida aparece o ambiente escolar, responsável por 24,5% dos episódios.

Aplicativos de mensagens e redes sociais foram apontados por 66,5% dos participantes como os canais de maior risco. Entre as plataformas mencionadas estão o Instagram, citado por 57,2% dos entrevistados, e o WhatsApp, por 52,1%.

Os jogos on-line representaram 12,3% dos casos.

Entre as estratégias utilizadas pelos agressores, o estudo destaca a coerção e a chantagem emocional. Um dos exemplos é a ameaça de divulgar conversas ou imagens para familiares da vítima como forma de pressioná-la a enviar novos conteúdos íntimos.