Adega Latência transforma o tempo de espera em experiência na CASACOR Bahia

Projeto de Sílvia Lectícia e Tays Mota propõe um ambiente de permanência e reflexão em meio à rotina marcada pela pressa, telas e excesso de estímulos

Por: Lucas Gravatá

Foto: Divulgação

Em uma rotina cada vez mais marcada pela velocidade, pela conexão permanente e pelo excesso de estímulos, a arquitetura começa a buscar maneiras de criar espaços que convidem justamente ao movimento contrário: a pausa. Na CASACOR Bahia 2026, a Adega Latência, assinada pelas arquitetas Sílvia Lectícia e Tays Mota, transforma o conceito de espera em uma experiência sensorial.

A proposta parte de uma característica própria das adegas: o tempo. Antes de ser apreciado, o vinho precisa ser armazenado em condições adequadas e, em muitos casos, passa anos em processo de maturação. No projeto, essa relação é levada para além da bebida e passa a orientar a experiência de quem entra no ambiente.

O nome Latência remete a algo que existe, mas permanece em estado de espera, desenvolvimento ou preparação. Para as arquitetas, a ideia também representa processos humanos que precisam de tempo para amadurecer.

“Latência é aquilo que existe, mas ainda está em processo de se revelar. É um estado de espera, de maturação, de uma transformação silenciosa.”

A proposta encontra relação direta com o tema desta edição da CASACOR Bahia, “Mente e Coração”, que propõe uma reflexão sobre a maneira como as pessoas ocupam e vivenciam os espaços.

Um convite para desacelerar

Para Sílvia Lectícia e Tays Mota, a estreia na CASACOR Bahia ganhou significado justamente por acontecer em uma edição que aborda a relação entre razão, emoção e bem-estar.

“Estrear na CASACOR Bahia já representa um momento muito importante para nós, mas fazer isso em uma edição que propõe uma reflexão sobre a forma como estamos vivendo tornou essa experiência ainda mais significativa.”

Segundo as arquitetas, o conceito de “Mente e Coração” também dialoga com a necessidade de desacelerar e transformar a casa em um espaço de acolhimento e cuidado.

“Mente e Coração” fala sobre esse equilíbrio entre razão e emoção, mas também sobre uma necessidade que temos: desacelerar, se reconectar com o que é essencial e voltar a enxergar a casa como um espaço de acolhimento e cuidado.

A adega foi pensada, portanto, como uma espécie de contraponto à lógica do cotidiano. Em vez de estimular a circulação rápida, o ambiente convida o visitante a sentar, conversar, observar e degustar.

“Por isso, mais do que criar uma adega, quisemos criar um espaço que representasse uma pausa. Um lugar para estar, sentir, conversar e permitir que o tempo aconteça. Para nós, essa é uma das formas mais bonitas de traduzir ‘Mente e Coração’ através da arquitetura.”

Materiais que ajudam a contar a história

A passagem do tempo não aparece no projeto de maneira literal. Ela é sugerida por meio dos materiais, da iluminação e da atmosfera criada pelas arquitetas.

Madeira em tons profundos, superfícies com aparência desgastada e uma iluminação mais baixa ajudam a construir um ambiente intimista, associado à permanência e ao recolhimento. A inspiração também vem das tradicionais adegas subterrâneas, espaços protegidos da luz e das interferências externas onde o vinho permanece durante o processo de maturação.

“Tentamos traduzir o tempo não de maneira literal, mas através da atmosfera.”

A escolha estética busca criar uma ruptura com o ritmo do lado de fora.

“A própria experiência de estar ali propõe uma mudança de ritmo. É um ambiente que não convida à passagem rápida, mas à permanência. Você entra, senta, conversa, observa, degusta.”

Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a integrar a experiência arquitetônica.

“O tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a fazer parte da arquitetura.”

Arquitetura para criar memórias

Além da relação com o tempo, a Adega Latência trabalha com outro elemento associado ao vinho: a memória. A bebida costuma estar presente em celebrações, encontros e momentos compartilhados, fazendo com que a lembrança esteja ligada não apenas ao que foi consumido, mas às pessoas e ao lugar onde a experiência aconteceu.

“Na maioria das vezes, não lembramos apenas do vinho que tomamos, mas de onde estávamos, com quem estávamos e o que foi celebrado.”

Foto: Divulgação

Para as arquitetas, a arquitetura também pode funcionar como suporte para essas lembranças. Texturas, cheiros, iluminação e materiais são capazes de despertar sensações e ajudar a construir novas memórias.

“A arquitetura tem uma capacidade muito grande de transformar memórias em experiências. Cheiros, texturas, uma luz agradável, uma madeira, uma música… tudo isso pode despertar lembranças.”

Por isso, a adega não foi concebida apenas para abrigar garrafas. A intenção é que o próprio espaço se torne parte das histórias vividas nele.

“Por isso, o espaço não foi pensado apenas como um lugar para armazenar garrafas. Ele foi pensado como um espaço para armazenar histórias.”

A casa como espaço de experiência

A ideia de criar ambientes mais afetivos acompanha uma mudança na forma como os espaços residenciais são percebidos. Se antes a estética e a funcionalidade ocupavam papel central, cresce a preocupação com a maneira como as pessoas se sentem dentro de uma casa.

Na avaliação das arquitetas, isso não significa abandonar a funcionalidade, mas ampliar o olhar sobre o que um projeto precisa oferecer.

“O cliente quer entender como vai se sentir naquele espaço. Quer uma casa que tenha a sua identidade, que acolha, que facilite a rotina e que também produza experiências e memórias.”

A madeira e as superfícies utilizadas na Adega Latência também reforçam essa percepção. Em vez de buscar materiais que aparentem estar sempre novos, o projeto valoriza marcas, variações e imperfeições.

“Isso conversa muito com a nossa visão de arquitetura: um espaço não precisa ser impecável ou intocado para ser belo. Ele pode ganhar valor justamente à medida que é vivido.”

O tempo como parte do projeto

No fim, a proposta da Adega Latência volta ao ponto de partida: a espera. Em uma sociedade em que respostas, informações e experiências estão disponíveis de forma quase instantânea, o projeto propõe recuperar o valor de simplesmente permanecer.

“A arquitetura pode nos lembrar que nem tudo precisa ser imediato.”

A experiência criada pelas arquitetas sugere uma pausa diante da velocidade cotidiana.

“Sentar. Conversar. Observar. Degustar. Esperar.”

Assim como uma garrafa que permanece armazenada até alcançar o momento adequado para ser apreciada, a Adega Latência propõe que algumas experiências também precisam de tempo para ganhar profundidade.

“Essa é uma das principais mensagens do projeto: assim como o vinho precisa do seu tempo para amadurecer, algumas coisas na vida também precisam de tempo para adquirir profundidade.”