JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, relaciona culto à “Rainha dos Céus” a passagens do Antigo Testamento; interpretação religiosa não é consenso histórico.
Por: Redação Alvoroço

O bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, igreja frequentada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), faz críticas à devoção católica à Virgem Maria em trechos atribuídos ao livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado originalmente em 2001. As informações foram divulgadas pelo jornalista Matheus Leitão, do Metrópoles.
Em uma passagem reproduzida pelo pastor Sérgio Lourenço, Carvalho afirma que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”.
A argumentação do religioso parte de referências aos capítulos 7 e 44 do livro de Jeremias, que relatam rituais dedicados a uma divindade feminina. Na interpretação apresentada por Carvalho, os episódios representam uma disputa pela glória que, segundo sua visão teológica, deveria ser destinada exclusivamente a Deus.
O bispo também relaciona os relatos bíblicos às consequências enfrentadas pelo antigo reino de Judá, incluindo a destruição e o exílio na Babilônia.
Associação com antigas divindades
Em outros trechos atribuídos à mesma obra, Carvalho estabelece uma relação entre antigas divindades e a devoção católica a Maria.
O religioso menciona figuras como Ninrode, Semíramis e Tamuz e sustenta que elementos de cultos antigos teriam sido incorporados posteriormente às tradições marianas.
Essa interpretação é apresentada pelo próprio autor a partir de uma perspectiva religiosa e não representa consenso histórico sobre a origem da devoção católica a Maria. A reportagem do Metrópoles também ressalta que a associação entre a devoção mariana e o culto a Semíramis não é um fato histórico estabelecido.
Relação com Flávio Bolsonaro
As declarações ganharam repercussão também pela relação de Carvalho com Flávio Bolsonaro.
O senador e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, em Brasília, em 2024. Em dezembro de 2025, dois dias após anunciar sua pré-candidatura à Presidência, Flávio escolheu a mesma igreja para uma aparição pública.
A relação entre o bispo e a família Bolsonaro também aparece em episódios envolvendo livros de autoria de Carvalho. Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, um exemplar de uma obra do religioso durante uma visita à Polícia Federal. Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro também levou outro livro escrito pelo bispo ao marido.
Declaração de Flávio sobre o cristianismo
A discussão também ocorre após declarações recentes de Flávio sobre sua relação com o cristianismo.
Em vídeo publicado em agosto de 2026, o senador afirmou que, caso chegasse à Presidência, pretendia declarar que o Brasil seria “do Senhor Jesus Cristo”. A fala foi repercutida no contexto do debate sobre a relação entre religião e política.
A doutrina oficial da Igreja Católica, por sua vez, estabelece uma distinção entre a veneração dedicada a Maria e a adoração reservada a Deus. O Catecismo afirma que o culto dedicado à Virgem é de natureza singular, mas “difere essencialmente” da adoração prestada à Trindade.