Por: Lucas Gravatá

A ideia de que ter uma casa própria, um carro na garagem e uma coleção de bens materiais representa sucesso vem perdendo força entre os mais jovens. Impulsionadas por mudanças econômicas, tecnológicas e culturais, as gerações Y (Millennials) e Z estão cada vez mais aderindo ao modelo conhecido como Economia do Acesso, no qual o uso de um produto ou serviço é considerado mais importante do que a sua posse.
A tendência já transformou setores como moradia, transporte, tecnologia e moda, criando um novo perfil de consumidor que prefere pagar pelo acesso temporário a um bem em vez de assumir os custos e responsabilidades de uma compra definitiva.
Especialistas apontam que a busca por mobilidade e liberdade é um dos principais fatores por trás da mudança de comportamento. Em um mercado de trabalho marcado por mudanças frequentes de emprego e cidade, muitos jovens preferem evitar compromissos de longo prazo, como financiamentos imobiliários ou empréstimos para aquisição de veículos.
Além disso, o aumento do custo de vida e a dificuldade de acumular patrimônio também influenciam essa decisão. Para muitos consumidores, experiências como viagens, cursos, gastronomia e entretenimento passaram a ser vistas como investimentos mais valiosos do que a compra de bens duráveis.
A ascensão da “Economia do Acesso”
O conceito ganhou força com a expansão das plataformas digitais, que facilitaram o aluguel e o compartilhamento de praticamente tudo: carros, bicicletas, imóveis, roupas, equipamentos eletrônicos e até smartphones.
O jurista e pesquisador norte-americano Lawrence Lessig, considerado um dos responsáveis por popularizar o conceito de Sharing Economy (Economia Compartilhada), argumenta que a tecnologia reduziu drasticamente os custos e as barreiras para o compartilhamento de recursos, transformando o aluguel em um modelo de negócios global.
Já as pesquisadoras Fleura Bardhi, da City University of London, e Giana Eckhardt, do King’s College London, defendem que a preferência pelo aluguel não está necessariamente ligada à sustentabilidade ou ao desapego material. Segundo elas, a motivação é sobretudo pragmática: os consumidores querem usufruir dos benefícios de um produto sem arcar com manutenção, depreciação ou burocracias.
“O consumidor moderno busca conveniência. A posse muitas vezes é percebida como um fardo”, apontam as pesquisadoras em estudos sobre a economia compartilhada.
O que mudou na prática?
Moradia
A compra da casa própria deixou de ser prioridade para muitos jovens. Em seu lugar surgem alternativas como aluguel de longo prazo, condomínios voltados exclusivamente para locação e modelos de coliving, onde moradores compartilham áreas comuns e serviços.
Transporte
Aplicativos de mobilidade e programas de assinatura de veículos reduziram a necessidade de possuir um carro. Em grandes centros urbanos, a posse de automóveis já não é vista como símbolo de status para boa parte da nova geração.
Tecnologia
A lógica da assinatura avançou para o mercado de eletrônicos. Empresas passaram a oferecer aluguel de notebooks, smartphones, tablets e outros equipamentos de alta tecnologia, permitindo acesso constante a modelos atualizados sem a necessidade de compra.
Moda
O chamado fashion rental também cresce. Em vez de adquirir roupas caras para ocasiões específicas, consumidores optam pelo aluguel de peças e acessórios de luxo por períodos curtos.
A visão dos pesquisadores
O professor canadense Russell Belk, uma das maiores referências mundiais em comportamento do consumidor, argumenta que a identidade das novas gerações não está mais vinculada apenas à acumulação de objetos físicos.
Segundo ele, as redes sociais contribuíram para uma mudança de paradigma: experiências compartilhadas passaram a gerar mais reconhecimento social do que a simples posse de bens materiais.
No Brasil, o pesquisador Helder Haddad, da ESPM, observa que a tendência avança, mas ainda encontra resistência cultural. Estudos nacionais indicam que os brasileiros demonstram maior disposição para alugar carros e imóveis, mas continuam valorizando a propriedade de itens de uso pessoal, como roupas e celulares.
O desafio do futuro
Apesar das vantagens relacionadas à flexibilidade e à praticidade, economistas alertam para um possível efeito colateral: a dificuldade de acumular patrimônio ao longo da vida.
Sem investimentos consistentes ou aquisição de ativos, parte dessas gerações pode enfrentar desafios financeiros na aposentadoria, especialmente em relação à moradia e à estabilidade econômica.
Para especialistas, o crescimento da Economia do Acesso não significa necessariamente o fim da propriedade privada, mas uma mudança na forma como as pessoas avaliam custo, conveniência e qualidade de vida.