Cães já tinham formatos variados há milhares de anos, revela estudo

A equipe de arqueólogos, geneticistas e especialistas em morfometria geométrica revelou que os cães já eram diversos há mais de 8 mil anos

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Recentemente, um estudo publicado na revista Science mudou a compreensão sobre a diversidade entre os cães. A pesquisa, liderada por Allowen Evin, da Universidade de Montpellier, na França, revelou que a variedade de formatos e tamanhos não começou com os cruzamentos do século 19.

Segundo os autores, isso já existia milhares de anos antes. Eles analisaram 643 crânios de canídeos que abrangem 50 mil anos de história. Cães e lobos já apresentavam diferenças claras cerca de 11 mil anos atrás, no Mesolítico. Os fósseis mais antigos que não são do Canis lupus vieram do sítio de Veretye, na Rússia.

Esses animais mesolíticos já eram menores e tinham traços que os separavam dos lobos. Depois, a diversidade física aumentou ainda mais. Para entender essa evolução, os pesquisadores trabalharam com modelos 3D de crânios antigos e modernos.

“Esses resultados destacam a longa história da nossa relação com os cães”, afirmou a coautora do estudo Carly Ameen, da Universidade de Exeter, na Inglaterra.

Conclusões sobre os crânios

Uma das conclusões feitas pelos estudiosos contraria hipóteses anteriores. Antes, os crânios pleistocênicos eram considerados os “primeiros cães”. No entanto, descobriu-se que estes não possuem características domésticas.

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Ou seja, os 17 exemplares analisados foram classificados como lobos. O estudo demonstra que boa parte da flexibilidade morfológica surgiu muito antes das raças atuais.

No Neolítico, os cães representavam cerca de metade da diversidade craniana vista hoje. Porém, ainda não existiam os formatos específicos de algumas raças conhecidas atualmente, como focinhos muito curtos ou alongados. Essa variedade só apareceria bem mais tarde.

Os cães antigos também eram menores e menos variados em tamanho do que os atuais. Mesmo assim, já apresentavam sinais de modificação humana, como rostos mais estreitos e crânios grandes. Sentidos como o olfato e a mastigação também mostravam maior variação.

Domesticação dos cães

domesticação desses animais ainda é um desafio para os arqueólogos. A genética mostra que a separação entre cães e lobos selvagens ocorreu antes de 11 mil anos. Mas reconhecer essa transição apenas pela aparência é difícil, já que o registro fóssil é escasso e muitas vezes incompleto.

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O estudo também concluiu que espécies extintas tinham uma variedade craniana maior que a dos lobos modernos. Essa diversidade pode ter sido influenciada por mudanças ambientais ao longo do tempo. Por isso, é difícil identificar o momento exato em que surgiu o cão doméstico.

“As fases iniciais da domesticação dos cães estão ocultas, e os primeiros cachorros continuam a nos escapar” disse Greger Larson, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os pesquisadores compararam cada crânio à forma média de um lobo atual. Nenhum exemplar do fim do Pleistoceno atingiu o limite necessário para ser classificado como cão. Isso sugere que as características domésticas só apareceram depois desse período.

Achados na Dinamarca, na Ásia Central e nas Américas mostram que a variedade canina cresceu junto com a dispersão humana. O cão encontrado no sítio de Koster, nos Estados Unidos, com cerca de 8,6 mil anos, é um dos primeiros domésticos confirmados no continente.

Outras conclusões

Entre 9,7 mil e 8,7 mil anos atrás, já havia uma redução significativa do tamanho dos crânios entre cães arqueológicos. E entre 8,2 mil e 7,2 mil anos, surgiram formas mais variadas, o que indica diversidade de animais para guarda, caça, companhia ou transporte.

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“O que agora podemos demonstrar com segurança é que, uma vez que os cães surgiram, eles se diversificaram rapidamente. Sua variação inicial reflete tanto as pressões ecológicas naturais quanto o profundo impacto da convivência com os humanos”, acrescentou Greger Larson.

Segundo a antropóloga Melanie Fillios, da Universidade de New England, que não participou do estudo, ainda há muito a investigar sobre grupos específicos de canídeos. Mesmo assim, ela reforça como humanos e cães moldaram um ao outro ao longo dos milênios.

“A pesquisa publicada na Science, porém, contribui para uma compreensão mais ampla da domesticação como um processo biológico e cultural complexo e multifacetado, no qual milhares de anos de história humana e animal estão entrelaçados”, concluiu.

Fonte: Metrópoles.