Consumo de alimentos em supermercados cresce após bloqueio das bets, aponta associação

Varejo alimentar registrou alta de até 6,5% no Nordeste em semanas de outubro; especialistas divergem sobre a relação entre a proibição das apostas e o aumento das compras.

Por: Redação Alvoroço

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O consumo de alimentos básicos, como arroz, óleo, macarrão e café, apresentou crescimento nos supermercados do Ceará após o bloqueio das plataformas de apostas online, segundo a Associação Cearense de Supermercados (Acesu). A entidade relata que empresas filiadas observaram aumento nas vendas depois da medida, oficializada em 25 de setembro.

Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) também apontam crescimento do consumo no varejo alimentar em diferentes regiões do país. Na semana de 5 a 11 de outubro, o Nordeste registrou alta de 6,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O secretário executivo da Acesu, Antônio Sales, reconhece a tendência apontada pelos levantamentos e afirma que os dados indicam aumento do consumo nos supermercados após a restrição às apostas.

A relação entre os dois acontecimentos, porém, é motivo de divergência. Enquanto representantes do setor supermercadista e um economista consideram possível que parte do dinheiro antes destinado às apostas tenha sido direcionada à compra de alimentos, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirma que os números não comprovam uma relação direta de causa e efeito.

Consumo cresce em semanas consecutivas

De acordo com o levantamento da Abras, o varejo alimentar brasileiro teve crescimento de 6,5% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O Sul e a região formada por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro apresentaram as maiores altas, de 10,6%.

Na semana seguinte, entre 12 e 18 de outubro, o consumo também avançou. A alta nacional foi de 6,3% em relação ao mesmo intervalo de 2025, enquanto o Nordeste registrou aumento de 4,5%.

A medida que restringiu as apostas online foi estabelecida pela Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro.

Com a publicação do texto, as plataformas ficaram impedidas de receber recursos dos apostadores. Os bancos responsáveis pelo processamento dos pagamentos também tiveram de devolver os valores investidos até 14 de outubro.

Abras identifica aumento generalizado

Durante uma coletiva de imprensa transmitida pelo YouTube na quinta-feira (29), o vice-presidente da Abras, Marcio Milan, classificou o crescimento do consumo como atípico e disseminado.

Segundo ele, a alta foi observada em todas as regiões do país e em diferentes formatos de estabelecimentos, incluindo supermercados, atacarejos e mercearias. O representante afirmou ainda que o estudo levou em conta fatores sazonais e comparações com períodos anteriores.

“Esse movimento reforça a possibilidade de que parte dos recursos antes destinados a apostas esteja sendo direcionada para o consumo das famílias. Esse aumento não esteve localizado numa região e nem em segmentos de supermercados que muitas vezes fazem grandes ofertas. Todo o histórico do consumo das famílias que divulgamos mensalmente tem indicadores consolidados que nos permite ter uma contextualização de fatores que contribuem ou interferem nessa dinâmica”, comenta Marcio Milan, vice-presidente da Abras.

De acordo com Milan, o relatório foi elaborado a partir de dados fornecidos pelas próprias empresas do setor supermercadista. A associação informou que continuará acompanhando o comportamento do consumo e pretende divulgar novas análises.

Economista vê possível relação com o fim das apostas

Para o economista Erico Veras, professor do mestrado profissional em Administração e Controladoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), é possível relacionar a restrição às apostas ao crescimento das compras nos supermercados.

“Essa relação tem certo sentido, porque nesse estrato da população que estava endividado com as bets, a maior parte do dinheiro vai para o consumo, e essa parte do consumo vai para alimentação. Além de não gastarem com apostas, essas pessoas receberam o dinheiro que estava nas bets. Tanto que o crescimento foi maior num primeiro momento”, salienta.

O especialista, no entanto, pondera que não é possível prever com precisão se o avanço continuará nas próximas semanas. Segundo ele, novembro e dezembro costumam registrar aumento no consumo de alimentos, entre outros motivos, por causa do pagamento do 13º salário.

“Juntando isso com a questão de que, como há recurso escasso nesse estrato social, qualquer recurso que deixa de ser utilizado para uma determinada coisa vai ser alocado em outro lugar, fazendo com que se possa dizer que teremos uma melhora no varejo. Mas não dá para dizer o quanto vai ser isso”, comenta Erico Veras, economista.

Setor de apostas questiona relação de causa e efeito

O presidente executivo do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), Carlos Lima, contesta a interpretação de que o bloqueio das plataformas tenha provocado o aumento das vendas nos supermercados.

Para ele, o levantamento da Abras não demonstra que os recursos antes utilizados em apostas foram transferidos diretamente para a compra de alimentos. Lima cita outros fatores que podem ter contribuído para ampliar o orçamento das famílias no período, como o programa Desenrola Adimplentes, o pagamento do abono salarial, a redução de tributos sobre combustíveis e a adoção da bandeira tarifária verde nas contas de energia em outubro.

“O consumo no Brasil já vinha crescendo antes mesmo da proibição. Observar apenas a proibição não significa que ela seja a única explicação. É necessário demonstrar que o dinheiro deixou de ser gasto em apostas e efetivamente passou para a compra de alimentos”, afirma Carlos Lima, presidente executivo do IBJR.

Lima também argumenta que o setor de apostas representa uma parcela menor da economia quando comparado ao consumo das famílias e ao faturamento dos supermercados. Ele ressalta, entretanto, que isso não elimina possíveis impactos das apostas sobre o orçamento de determinados consumidores.

O representante do IBJR ainda afirma que o encerramento do mercado regulado pode ampliar a atuação de operadores ilegais. Segundo o instituto, os jogos clandestinos de apostas cresceram 101% após a medida provisória.

STF debate setor de apostas

O Supremo Tribunal Federal (STF) também discute o mercado de apostas online. O ministro Luiz Fux convocou audiências públicas para debater o setor, com sessões previstas para terça-feira (3), conforme o calendário informado no material de origem.