O acidente radioativo com o Césio-137 que vai virar série na Netflix

Por: Lucas Gravatá

O acidente ocorreu em 13 de setembro de 1987, vitimou 4 pessoas e mais de mil sofreram com sequelas com o passar dos anos

Foto: Divulgação Netflix e Reprodução / Governo de Goiás

Em breve, a Netflix vai lançar a minissérie, Emergência Radioativa, inspirada no acidente radioativo com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987. O projeto, que busca resgatar a memória de um dos maiores desastres nucleares do mundo fora de usinas, pretende lançar luz sobre as falhas sistêmicas e o drama humano que marcaram a capital de Goiás na década de 80.

A estreia está prevista para 18 de março, e vai focar na corrida contra o tempo para conter a contaminação. A obra tem direção geral de Fernando Coimbra e direção de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho, produção de Caio Gullane e Fabiano Gullane, criação de Gustavo Lipsztein e produção executiva de Caio Gullane, Fabiano Gullane, Pablo Torrecillas e Ana Saito e elenco incluindo Johnny Massaro e Paulo Gorgulho. mas já desperta discussões sobre a responsabilidade histórica de retratar as vítimas e o impacto ambiental que perdura até hoje.

“Emergência Radioativa resgata, por meio da ficção, um evento histórico quase esquecido no país, mas que diz muito sobre nós enquanto nação. A narrativa tem múltiplos pontos de vista e é liderada pelas vítimas, médicos e físicos, sendo que esses últimos são protagonistas incomuns na nossa dramaturgia. Também é raro termos uma série de gênero thriller que não se trata de policiais e bandidos, mas sim de pessoas comuns lidando com um evento extraordinário”, comenta Fernando.

O que é o Césio-137?

O césio-137 é um elemento radioativo que libera radiação gama, um tipo de radiação ionizante de alta energia e grande poder de penetração no corpo humano. Esse tipo de emissão é capaz de remover elétrons dos átomos, provocando danos às células e ao DNA. A cápsula que contém a substância pode alcançar atividade de cerca de 19 gigabecquerels, nível considerado elevado e comparável à exposição aproximada de dez exames de raio-X por hora.

A tragédia

Foto: Reprodução

O acidente teve início em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de papel encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas de um antigo hospital desativado no centro de Goiânia. O objeto foi vendido a um ferro-velho, onde outras pessoas desmontaram o equipamento para vender o chumbo, os homens liberaram uma cápsula contendo cloreto de césio-137, um pó salino esbranquiçado durante o dia e luminoso à noite.

Encantados com o fenômeno, familiares e vizinhos dos catadores manusearam e distribuíram o material, desconhecendo o perigo invisível da radiação. O pó radioativo contaminou roupas, alimentos e o solo, espalhando-se rapidamente por diversos bairros.

Contaminação

Foto: Reprodução / Governo de Goiás

A contaminação só foi descoberta duas semanas depois, quando a esposa de um dos donos do ferro-velho, Maria Gabriela Ferreira, levou parte do equipamento à Vigilância Sanitária. O balanço oficial do governo brasileiro aponta quatro mortes imediatas, incluindo a de Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos, que se tornou o símbolo da tragédia.

Ao todo, 112.800 pessoas foram avaliadas. Destas, 249 apresentaram contaminação significativa interna e/ou externa. Cento e vinte tinham apenas vestígios em roupas e calçados e foram liberadas após descontaminação. Outras 129 passaram a acompanhamento médico regular. Vinte casos exigiram internação hospitalar, sendo que quatro pessoas morreram semanas depois, vítimas de complicações associadas à Síndrome Aguda da Radiação, como hemorragias e infecções generalizadas. Vinte e oito pacientes desenvolveram lesões cutâneas decorrentes da exposição.

No entanto, associações de vítimas estimam que mais de mil pessoas foram afetadas pela exposição, além do estigma social que isolou os moradores da região por anos.

Lixo radioativo

Foto: Reprodução / Governo de Goiás

A descontaminação urbana incluiu a demolição de imóveis e a remoção de grandes volumes de solo. O acidente gerou cerca de 3.500 metros cúbicos de rejeitos radioativos, armazenados em contêineres de concreto. O material foi destinado a um repositório definitivo em Abadia de Goiás, onde funciona um centro regional sob responsabilidade da CNEN para monitoramento ambiental.

Do Fato à Ficção

A série da Netflix deve seguir a tendência de sucessos como Chernobyl (HBO), focando no realismo técnico e na tensão política da época. O desafio da produção será equilibrar o tom dramático com o respeito à dor das famílias, muitas das quais ainda lutam por assistência médica integral.

O lixo radioativo gerado pelo acidente — cerca de 6 mil toneladas de rejeitos — permanece armazenado em recipientes de concreto na cidade de Abadia de Goiás, onde o monitoramento deve continuar por pelo menos 300 anos.