“Ungido não é abusador. Ungido não é agressor”; dispara pastora sobre violência contra mulheres e crianças nas igrejas

Discurso de pastora em evento evangélico defende denúncia de abusos e violências, ressaltando que a igreja não pode mais se omitir

Por: Redação Alvoroço

Foto: Reprodução / Gideões

Uma pregação da pastora Helena Raquel, da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), ganhou grande repercussão nas redes sociais e provocou debate entre fiéis e lideranças políticas. O discurso foi feito durante o 41° congresso Gideões Missionários da Última Hora, realizado no último domingo (3), considerado um dos maiores encontros evangélicos do mundo.

Durante a fala, a pastora abordou temas como violência contra a mulher, abuso infantil e pedofilia. Ela afirmou que igrejas não devem acobertar casos de agressão e reforçou a importância de acolher vítimas e denunciar crimes.

“A maior parte das pessoas que são vítimas, em igrejas evangélicas, de violência doméstica ou de violência sexual, elas são orientadas a não denunciar o culpado. O que eu estou dizendo é um saber empírico, como não há pesquisa, não há dados. Isso é um saber empírico. Porque eu tenho 47 anos de idade e nasci em um lar cristão. E me lembro perfeitamente de pessoas que diziam sobre alguém: ‘pelo amor de Deus, não fala, para não escandalizar’. Empírico. Não tenho dados. Olho roxo… Ora para Jesus salvar. Deus me trouxe aqui para usar os minutos que pregadores no Brasil gostariam de usar para salvar a tua vida da morte. Para de orar por ele [o agressor] hoje e comece a orar por você a partir de agora. Você precisa ter coragem para sair e fazer a denúncia em uma delegacia de apoio à mulher ou qualquer outra. Você precisa com urgência ligar para alguém de confiança e buscar um lugar seguro. Por último, não acredite no pedido de desculpas, porque quem agride mata”, disse a pastora em determinado trecho da pregação.

Em uma publicação realizada no seu perfil do Instagram, a religiosa reforça o discurso ao dizer que agressor “Não representa Deus” e incentiva a denúncia, ao afirmar que “Existe algo que a igreja não pode mais fazer: se omitir”.

“Existe algo que a igreja não pode mais fazer: se omitir. Não existe unção que justifique abuso. Não existe chamado que autorize agressão. Se agride… Não representa Deus. ‘Ungido não é abusador. Ungido não é agressor.’ A verdade precisa ser dita com clareza: se é pastor, se é obreiro, se é membro [da igreja]… Mas fere, oprime e violenta, isso não é autoridade espiritual. Isso é pecado. E pecado não se protege. Se confronta. Se você está vivendo ou presenciando isso, não se cale. O silêncio nunca foi a vontade de Deus. Denuncie. Ligue 100 [para casos de abuso infantil]. Ligue 180 [para casos de violência contra a mulher]. A igreja precisa voltar a ser lugar de cura, não de medo. E onde há verdade, há libertação”, escreveu a pastora.5

Em outro trecho, Helena Raquel orientou crianças sobre como buscar ajuda em situações de abuso. Ela mencionou o número “100”, canal oficial de denúncias, e incentivou que menores acionem o serviço caso se sintam ameaçados ou sofram qualquer tipo de violência.

A repercussão foi imediata nas redes sociais, com o vídeo sendo compartilhado por figuras públicas de diferentes correntes políticas. A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) classificou a fala como “corajosa e importante pregação da pastora Helena Raquel!” e destacou a importância da união de mulheres, independentemente de posicionamento político, no enfrentamento à violência.

Precisamos dar um basta na violência contra nós, mulheres. Fico muito feliz de ver cada vez mais de nós deixando diferenças de lado e se unindo nessa luta. É disso que precisamos para fazer o PL da Misoginia avançar no Congresso. Nessa semana, vamos instaurar o Grupo de Trabalho pra discutir o projeto, e eu, como relatora, estou trabalhando muito pra que a gente vote essa pauta tão importante na Câmara ainda em junho. As mulheres brasileiras têm pressa. Estamos correndo contra o tempo pra dar uma resposta a elas e dar fim ao ciclo perverso da violência de gênero no nosso país”, escreveu a deputada.

Uma das figuras evangélicas mais importantes da política nacional, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, compartilhou um da psicanalista clínica Angela Sirino reagindo o discurso da pastora e fazendo críticas à polêmica gerada entre evangélicos. “Não foi a fala da pastora Helena Raquel no Congresso Gideões 2026 que chocou. Foi o que ela revelou. Quando a denúncia incomoda mais do que o erro, algo está fora do lugar. Fé não acoberta. Fé confronta. E a pergunta é: o que incomodou tanto?”, questionou Sirino.

Assista ao vídeo:

Reprodução / Instagram @helenaraquelofc