Irã: protestos contra crise econômica e repressão estatal marcam pior onda de insatisfação em anos

Os protestos começaram no dia 28 de dezembro de 2025 devido à grave deterioração das condições econômicas, se transformaram em uma crise política profunda que desafia a estabilidade do regime da República Islâmica

Por: Lucas Gravatá

Foto: MAHSA / Middle East Images / AFP via Getty Images

O Irã enfrenta uma das maiores ondas de protestos de sua história recente, com manifestações antigovernamentais espalhadas por dezenas de cidades e uma resposta cada vez mais violenta das autoridades. Os protestos, que começaram no dia 28 de dezembro de 2025 devido à grave deterioração das condições econômicas, se transformaram em uma crise política profunda que desafia a estabilidade do regime da República Islâmica.

A insatisfação popular se originou com a queda acentuada da moeda nacional, inflação alta e dificuldades econômicas que incidem sobre a vida cotidiana de milhões de iranianos. Comerciantes do Grand Bazaar em Teerã começaram os protestos por causa da desvalorização de cerca de 80% do rial, somente em 2025 e continuaram a mobilização com sindicatos, estudantes e trabalhadores em várias províncias.

As manifestações evoluíram para um movimento nacional, incluindo demandas mais amplas por reformas políticas e críticas abertas ao líder supremo do país, Ali Khamenei. O governo respondeu com um apagão total da internet, bloqueios nas comunicações e um endurecimento da repressão.

Organizações de direitos humanos relatam milhares de prisões, uso de munição real por forças de segurança e um número crescente de mortos que, segundo a agência de notícias Reuters, cerca de 2 mil pessoas foram mortas.

Reações

Foto: EPA/Reuters

O líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”, culpando potências estrangeiras por instigar a instabilidade e defendendo uma linha dura contra os protestos.

O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que o país está “totalmente preparado para a guerra” caso potências externas, em especial os EUA, interfiram na crise interna, e acusou os protestos de terem se tornado “sangrentos para dar desculpa a uma intervenção americana”. No entanto, Abbas Araghchi, afirmou que o governo de seu país está aberto a negociações com o governo americano.

O presidente dos EUA, Donald Trump advertiu sobre penalidades econômicas a parceiros comerciais do Irã e emitiu avisos de segurança para cidadãos americanos no país, destacando a deterioração da situação.

Funcionários do Departamento de Defesa dos EUA disseram à CBS News, que Donald Trump foi informado sobre uma ampla gama de dispositivos militares e ações secretas para possível uso no Irã, como ataques com mísseis de longo alcance para uma eventual intervenção dos EUA. Outras alternativas como operações cibernéticas e campanhas psicológicas, fontes também foram apresentadas ao presidente americano, segundo as fontes à CBS.

O secretário do Conselho de Segurança russo, Sergei Shoigu, conversou com autoridades iranianas e condenou o que chamou de interferência externa, reiterando apoio a Teerã em meio à crise.

Apesar do cerco de comunicações e da repressão estatal, as manifestações continuam, sobretudo à noite, em meio a relatos de confrontos diretos com forças de segurança. O número de detidos ultrapassa os 10 mil, e defensores dos direitos humanos temem escalada de violência e mais vítimas.

Analistas apontam que, sem uma resposta eficaz à crise econômica e às demandas por reformas, o movimento pode persistir e ampliar suas repercussões regionais e internacionais.

Novas tarifas

Nesta segunda-feira (12/01), Trump publicou na sua rede social, Truth Social, que vai aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos de países que “fazem negócios” com Teerã.

“Imediatamente, qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã pagará tarifas de 25% sobre qualquer transação que realize com os Estados Unidos. Essa ordem é definitiva e conclusiva”, afirmou.

A Casa Branca não divulgou informações adicionais sobre as tarifas citadas por Trump. A China é o maior parceiro comercial do Irã, seguida por Iraque, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Índia.

O Brasil também é alvo das tarifas adicionais anunciadas pelo presidente americano. O país possui um fluxo comercial positivo com o Irã de aproximadamente U$$ 3 bilhões.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil possui superávit primário na balança comercial com o Teerã. Em 2025 o resultado foi de US$ 2,9 bilhões em exportação e US$ 84,6 milhões em importação.

As exportações do país do Golfo Pérsico são praticamente de produtos agrícolas, com destaque para o milho não moído, soja, açúcares e melaços e farelos de soja, farinhas de carnes e outros alimentos para animais.