Estudos apontam que interação química, reação acrossômica e compatibilidade biológica são decisivas para o sucesso da fertilização
Por: Lucas Gravatá

Novas descobertas científicas têm desafiado uma das ideias mais difundidas sobre a reprodução humana: a de que a fecundação seria apenas uma “corrida” vencida pelo espermatozoide mais rápido. Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B trouxe novas evidências sobre o papel ativo do óvulo no processo de fecundação, contrariando a visão tradicional de que apenas os espermatozoides seriam responsáveis pela escolha e penetração.
Para que a fecundação ocorra, o espermatozoide precisa ultrapassar a zona pelúcida, camada protetora que envolve o óvulo. Esse avanço depende da chamada reação acrossômica, momento em que estruturas presentes na cabeça do espermatozoide liberam enzimas capazes de romper essa barreira. Sem essa etapa, a penetração no óvulo não acontece, mesmo que o gameta masculino consiga chegar até ele.
Antes disso, porém, entra em cena um mecanismo menos visível, mas determinante. O ambiente ao redor do óvulo exerce papel ativo ao liberar sinais químicos que influenciam o comportamento dos espermatozoides. Estudos apontam que esses estímulos podem favorecer determinadas células em detrimento de outras, aumentando as chances de sucesso de alguns espermatozoides.
A pesquisa aponta que o óvulo não atua de forma passiva, mas participa diretamente da interação com os espermatozoides, influenciando quais deles têm maior probabilidade de sucesso na fertilização. De acordo com os cientistas, o ambiente químico ao redor do óvulo pode atrair ou favorecer determinados espermatozoides, indicando um processo seletivo mais complexo do que se imaginava.
Os resultados reforçam a ideia de que a fecundação envolve uma espécie de “comunicação” entre gametas, em que fatores genéticos, sinais bioquímicos ou imunológicos desempenham papel fundamental na aproximação e escolha do espermatozoide mais compatível.
Na prática, isso sugere que o óvulo pode até “escolher” qual espermatozoide tem mais chance de fecundá-lo.
Esse fenômeno é chamado de quimioatração espermática. Em termos práticos, alguns espermatozoides respondem melhor a esses sinais e, por isso, têm maior probabilidade de alcançar o óvulo.
Nesse processo, substâncias químicas liberadas pelo conjunto formado pelo óvulo e pelas células que o envolvem atuam como sinais que direcionam o deslocamento dos espermatozoides pelo trato reprodutor feminino, auxiliando-os a encontrar o gameta feminino.
Em entrevista ao g1 o urologista e andrologista Bernardo Hermanson, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, esses sinais ajudam a recrutar os espermatozoides capazes de chegar até o local da fertilização.
“Essas moléculas funcionam como um sistema de orientação. Elas ajudam a recrutar os espermatozoides capazes de responder ao gradiente químico e chegar até o óvulo”, explica.
Uma saída para entender a infertilidade
A hipótese abre uma linha de investigação relevante: mesmo quando exames indicam que espermatozoides e óvulos estão saudáveis, a fecundação pode não ocorrer.
De acordo com Hermanson, esse fator pode ajudar a esclarecer parte dos casos de infertilidade sem causa aparente, nos quais os testes convencionais não identificam alterações.
“O casal pode ter gametas considerados normais nos exames tradicionais, mas uma comunicação química ineficiente entre eles”, afirma o especialista.
Ele pondera, no entanto, que essa relação ainda não foi comprovada de forma direta em seres humanos fora do ambiente laboratorial.
“Os estudos mostram que o fenômeno existe e é consistente em laboratório, mas ainda não há prova de que ele seja causa de infertilidade no organismo”, completa.
Nem todos os espermatozoides reagem da mesma forma
Outro ponto relevante é que, dentro de uma mesma amostra de sêmen, os espermatozoides não apresentam comportamento uniforme diante dos sinais químicos.
Apenas uma parcela reduzida dessas células alcança o estágio conhecido como capacitação, condição essencial para que possam fecundar o óvulo.
Dessa forma, pequenas variações na resposta aos estímulos químicos podem ser determinantes para definir quais espermatozoides conseguem chegar até o óvulo.