Fontes ouvidas pela Reuters afirmam que governo dos EUA não pretende respaldar as ambições políticas do senador, que viajou para Miami após a derrota eleitoral; presidente americano, porém, pode mudar de posição.
Por: Redação Alvoroço

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não pretende apoiar a reivindicação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ser o líder legítimo do Brasil após a derrota nas eleições presidenciais. A informação foi divulgada pela agência Reuters nesta quinta-feira (29), com base em relatos de uma autoridade norte-americana e de outra pessoa familiarizada com o assunto, ambas sob condição de anonimato.
Segundo as fontes, embora o governo americano tenha autorizado a entrada de Flávio no país e ajudado a viabilizar sua chegada, não há, neste momento, planos de apoiar suas pretensões políticas. Os interlocutores ressaltaram, no entanto, que Trump pode mudar de ideia.
A posição indica que a Casa Branca pode estar buscando evitar novos atritos diplomáticos com o Brasil, após meses de oscilações na relação entre os dois países.
Trump afirmou que a eleição brasileira de domingo (25) pareceu “manipulada”, mas disse que não ofereceu apoio a nenhum candidato durante a disputa. O presidente americano também declarou ter uma boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito com uma vantagem de aproximadamente 3,5 pontos percentuais sobre Flávio, contrariando parte das pesquisas de intenção de voto.
“Gosto do Lula, me dou muito bem com ele”, disse Trump a jornalistas na segunda-feira. “Só acho que a eleição deixou uma péssima impressão.”
Viagem aos EUA provoca críticas entre conservadores
Uma terceira fonte do governo americano ouvida pela Reuters avaliou que a influência política de Flávio diminuiu após sua saída do Brasil. A viagem provocou críticas de conservadores brasileiros que esperavam que o senador assumisse a liderança da oposição nos próximos anos.
A Casa Branca encaminhou um pedido de manifestação ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio também não se pronunciaram sobre o assunto.
O senador é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado para permanecer no poder depois da derrota nas eleições de 2022.
Autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, também sob anonimato, disseram que a saída de Flávio pode favorecer Lula ao enfraquecer a oposição conservadora no Congresso Nacional.
Saída ocorreu após ordem para entregar passaporte
A viagem de Flávio aconteceu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a entrega do passaporte do senador, atendendo a um pedido da Polícia Federal. A corporação o investiga por suspeitas relacionadas a um possível esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O pedido da Polícia Federal foi apresentado poucos minutos após a confirmação da vitória de Lula. Para alguns conservadores, a sequência de acontecimentos levantou suspeitas de motivação política. Essa interpretação, porém, não comprova irregularidade na atuação das autoridades.
Aliados do governo Lula, por sua vez, lembraram que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e ex-deputado federal que vive nos Estados Unidos, havia sugerido publicamente, dias antes da eleição, que Flávio deixasse o Brasil caso perdesse a disputa. Eduardo foi condenado pelo STF em junho por tentar obter interferência do governo Trump no julgamento do pai.
Flávio viajou com a família por Argentina e Equador
Segundo autoridades argentinas, Flávio Bolsonaro, a esposa e as duas filhas atravessaram uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira (27). Às 23h30, a família embarcou em um avião fretado e seguiu para Miami, com escala no Equador.
Ainda não está esclarecido como o senador percorreu o trajeto entre Brasília e a fronteira argentina, distante cerca de 1,3 mil quilômetros, nem como deixou o território brasileiro sem que as autoridades alfandegárias tivessem conhecimento da saída.
Uma das fontes ouvidas pela Reuters afirmou que Flávio manteve contato com autoridades americanas durante o deslocamento para tratar de sua viagem.
Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, teria ajudado a organizar o voo a partir da Argentina, segundo a pessoa familiarizada com o caso. A informação também foi publicada pelo jornal The New York Times.
Durante o trajeto, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, recomendou a Trump que autorizasse a entrada do senador nos Estados Unidos. De acordo com a autoridade ouvida pela Reuters, o presidente concordou com a recomendação.
Carta de Flávio teve duas versões
Na quarta-feira (28), Flávio publicou uma carta aberta na rede social X na qual se declarou “o presidente eleito” do Brasil. Pouco depois, retirou essa versão e divulgou outra mensagem, na qual passou a se apresentar como o “líder” legítimo do país.
No documento, o senador questionou o resultado das eleições e contestou a atuação de autoridades brasileiras. A publicação foi o episódio mais recente de uma sequência de acontecimentos que ampliaram as tensões políticas no Brasil e as discussões sobre a relação com os Estados Unidos.
Apesar das críticas à condução do processo eleitoral brasileiro, Trump evitou fazer ataques diretos a Lula e reiterou publicamente que mantém uma relação positiva com o presidente brasileiro.