“O Estado tem que entrar, não pode ficar nas mãos de milicianos”, diz governador interino do Rio de Janeiro

Por: Lucas Gravatá

Foto: Divulgação/TJ-RJ

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, tem chamado atenção por adotar medidas administrativas consideradas incomuns no cenário político fluminense, afirma a jornalista Miriam Leitão, em artigo publicado nesta quinta-feira por O Globo.

Segundo a colunista, a população do Rio convive há anos com uma sequência de crises políticas e escândalos envolvendo ex-governadores, o que teria gerado um ambiente de descrença em relação à política. Nesse contexto, ela destaca que o espanto atual decorre justamente de decisões que considera naturais na administração pública.

Na entrevista, Ricardo Couto detalhou algumas das ações adotadas desde que assumiu interinamente o governo. Entre elas está a tentativa de recuperar recursos relacionados ao rombo bilionário do RioPrevidência. De acordo com o governador em exercício, o Estado busca mecanismos judiciais para reaver valores ligados ao Banco Master.

“Já está sub judice, eu tenho muita fé que o Estado venha a recuperar esses valores”, afirmou.

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, confirmou a intenção de desapropriar a área onde funciona a Refinaria de Manguinhos, operada pela Refit. A informação havia sido antecipada pelo jornalista Lauro Jardim.

Segundo Couto, o Estado busca autorização da União para realizar a desapropriação, já que o terreno pertence ao governo federal e a empresa possui apenas o domínio útil da área. A proposta prevê utilizar parte da dívida tributária atribuída à companhia, estimada em cerca de R$ 10 bilhões, para compensar os custos da operação.

“A ideia é expropriar e transformar aquela área num polo industrial, que já é. E temos vários interessados, como a Petrobras”, afirmou.

De acordo com o governador em exercício, a medida poderia permitir a recuperação de recursos para os cofres estaduais e estimular novos investimentos na região.

Ricardo Couto promoveu a exoneração de mais de 2.700 funcionários e determinou o fechamento de secretarias estaduais. O desembargador explicou que a medida atingiu servidores não concursados e defendeu a necessidade de limitar o número de cargos ocupados por profissionais sem vínculo efetivo.

Sobre possíveis casos de funcionários que não compareciam aos locais de trabalho, ele declarou: “Nós temos que saber o motivo. Tudo leva a crer que eram fantasmas. E, por isso, a impossibilidade de mantê-los nos quadros do poder público”.

Facções criminosas

Couto também defendeu uma atuação mais firme do poder público em áreas sob influência de organizações criminosas. Para ele, o Estado precisa retomar esses territórios por meio de ações que combinem segurança pública, urbanização e oferta de serviços à população.

“O Estado tem que entrar, não pode ficar nas mãos de milicianos. A população precisa receber titulação de propriedade. Temos que acabar com essa ideia de que a população vai lá e paga aluguel para miliciano, compra a propriedade do miliciano. Não é do miliciano isso. Nessas áreas nós temos que entrar, redistribuir a propriedade de forma imediata”, declarou.

Ainda segundo Couto, decisões desse tipo muitas vezes enfrentam resistência de agentes políticos por possíveis impactos eleitorais. No entanto, ele afirmou que as medidas precisam ser adotadas com urgência, independentemente dos custos políticos.

Linha sucessória

Questionado sobre a sequência de governadores do Rio de Janeiro envolvidos em investigações ou problemas na Justiça, o governador em exercício, Ricardo Couto, afirmou que os eleitores precisam ter mais atenção no momento de escolher seus representantes. Em entrevista à jornalista Miriam Leitão, de O Globo, ele avaliou que a disseminação de notícias falsas pode influenciar decisões nas urnas e ressaltou a importância do trabalho da imprensa profissional no combate à desinformação.

Couto também comentou o cenário político que o levou ao comando do estado. Com a linha sucessória comprometida, o presidente do Tribunal de Justiça assumiu interinamente o governo. Sem previsão de quanto tempo permanecerá no cargo, o desembargador afirmou: “Eu não tenho noção de quanto tempo vou ficar”.

Apesar da indefinição, Ricardo Couto disse que tem adotado medidas administrativas diante da necessidade de manter o funcionamento da máquina pública. Segundo ele, a população não pode ser prejudicada pela instabilidade institucional, e as decisões vêm sendo tomadas diretamente da estrutura do Tribunal de Justiça, onde continua atuando.