O levantamento foi realizado pelo pesquisado Daniel Duque, do FGV Ibre, com base na Pnad Contínua, do IBGE
Por: Lucas Gravatá

O avanço da inteligência artificial já começa produzir efeitos negativos na inserção profissional e na renda de jovens brasileiros, especialmente entre aqueles que atuam ou buscam vagas em áreas mais suscetíveis ao uso dessa tecnologia. É o que aponta um estudo conduzido por Daniel Duque, com base em dados da Pnad Contínua, do IBGE.
De acordo com o levantamento do FGV Ibre, trabalhadores entre 18 e 29 anos mais expostos a ocupações com maior presença de inteligência artificial apresentam uma probabilidade de emprego cerca de 5% menor em comparação ao período anterior à popularização dessas ferramentas.
Para chegar a esse resultado, o estudo comparou grupos de profissionais com características semelhantes em dois momentos distintos: 2022, antes da disseminação de ferramentas como o ChatGPT, e 2025. A principal diferença entre os grupos analisados foi o grau de exposição à IA nas atividades desempenhadas. Setores como serviços financeiros e de informação, mais impactados pela tecnologia, registraram maior perda de postos de trabalho entre os jovens.
Além da redução na empregabilidade, a pesquisa também identificou queda na renda. Trabalhadores mais expostos à IA tiveram remuneração aproximadamente 7% menor. Segundo o estudo, isso ocorre porque a tecnologia tem alta capacidade de executar tarefas iniciais e padronizadas — funções administrativas, operacionais e de apoio — que costumam representar a porta de entrada no mercado de trabalho.
“Os empregos de entrada, que a IA consegue desempenhar de forma mais eficiente e com menor custo, são justamente os mais suscetíveis à substituição”, afirma Duque.
O impacto, no entanto, não se repete com a mesma intensidade em outras faixas etárias. De acordo com o pesquisador, profissionais mais experientes tendem a ocupar cargos voltados à tomada de decisão, área em que a inteligência artificial ainda possui limitações. “Funções estratégicas e decisórias seguem menos expostas, ao menos neste momento”, explica.
O estudo também indica que a tecnologia vem reduzindo o valor econômico de tarefas mais simples e repetitivas, o que pressiona salários justamente nas ocupações iniciais. Ainda assim, Duque ressalta que os dados devem ser analisados com cautela, já que o fenômeno é recente e a base de informações ainda está em consolidação. “Mesmo com uma janela curta, já é possível observar um impacto relevante, o que chama atenção para os efeitos futuros”, pontua.
A pesquisa complementa análises anteriores realizadas por outros economistas do FGV Ibre, que, com base em metodologia da Organização Internacional do Trabalho, estimaram que cerca de 30 milhões de brasileiros — o equivalente a quase 30% da população ocupada — atuam em profissões com algum nível de exposição à inteligência artificial.
Dentro desse grupo, aproximadamente 5 milhões de trabalhadores estão em ocupações com alto grau de risco de automação, com maior concentração entre jovens, pessoas com maior nível de escolaridade e profissionais do setor de serviços, especialmente nas áreas de informação e comunicação e atividades financeiras.
Especialistas avaliam que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. Estudos internacionais, como pesquisas conduzidas pela Universidade de Stanford, também apontam queda na empregabilidade de profissionais em início de carreira em setores altamente expostos à IA, indicando uma tendência global de transformação no mercado de trabalho.
Diante desse cenário, pesquisadores alertam para possíveis efeitos de longo prazo. A dificuldade de inserção inicial pode comprometer o acúmulo de experiência e renda ao longo da vida profissional, impactando a produtividade futura dessa geração. “Se os jovens entram no mercado em condições mais adversas, as consequências podem ser duradouras e difíceis de prever”, conclui Duque.