Ministério Público apontou doença grave preexistente como causa da morte do animal
Por: Redação Alvoroço

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) pediu o arquivamento das investigações sobre a morte do cão comunitário Orelha, caso que gerou grande repercussão nas redes sociais no início deste ano, em Florianópolis. O pedido foi protocolado na última sexta-feira (8) e agora depende de decisão da Justiça.
O cachorro, conhecido por moradores da Praia Brava, foi encontrado agonizando no dia 5 de janeiro. Na época, a Polícia Civil trabalhava com a hipótese de que o animal teria sofrido um “golpe na cabeça com objeto contundente”. Após atendimento veterinário, Orelha foi submetido à eutanásia devido à gravidade do quadro clínico.
Segundo o Ministério Público, a manifestação foi assinada por três Promotorias de Justiça e leva em consideração a análise de quase dois mil arquivos digitais, incluindo imagens de câmeras de segurança, registros de celulares e depoimentos de testemunhas.
Além do caso envolvendo a morte do animal, o órgão também solicitou o encerramento das apurações relacionadas a uma suposta coação contra testemunhas e a denúncias de maus-tratos contra outros cães comunitários.
De acordo com o MPSC, um dos principais pontos para o pedido de arquivamento foi a reconstituição correta da linha do tempo dos fatos. A investigação identificou um “descompasso temporal de cerca de 30 minutos” entre câmeras públicas e equipamentos privados de um condomínio onde estava um dos adolescentes investigados.
Com a correção dos horários, a perícia concluiu que, no momento em que o jovem estava em um deck na praia, Orelha se encontrava a cerca de 600 metros do local. As imagens também indicaram que o cão ainda apresentava capacidade motora normal quase uma hora após a suposta agressão.
Adolescentes suspeitos
No início das investigações, quatro adolescentes chegaram a ser apontados pela Polícia Civil como suspeitos das agressões que teriam provocado a morte do cachorro. Um deles teve pedido de internação após ser abordado no aeroporto ao retornar de viagem dos Estados Unidos.
O Ministério Público, porém, afirmou que a linha investigativa foi sustentada por “narrativas indiretas e boatos em redes sociais”, sem testemunhas presenciais ou gravações que mostrassem o momento de uma eventual agressão.
Novos laudos e exumação
Em fevereiro, diante de dúvidas sobre a investigação inicial, o MP solicitou a exumação do corpo do animal. O novo laudo da Polícia Científica apontou ausência de fraturas ou lesões ósseas compatíveis com violência provocada por humanos.
Mesmo com o corpo em processo de esqueletização, os peritos não encontraram sinais que confirmassem a hipótese de trauma craniano por pancada.
A perícia indicou ainda que Orelha sofria de “osteomielite na mandíbula esquerda”, uma infecção óssea grave causada por doença periodontal avançada. Segundo o relatório, o problema provocava um inchaço abaixo do olho, compatível com os sintomas observados no atendimento veterinário.
O documento também cita a morte de uma cadela conhecida como Pretinha, companheira de Orelha, que morreu poucos dias depois em decorrência da doença do carrapato.
Repercussão nas redes sociais
O caso ganhou ampla repercussão nacional e mobilizou ativistas, influenciadores e personalidades públicas. A ativista Luisa Mell chegou a entrevistar a delegada responsável pela investigação, enquanto políticos e celebridades cobravam punição aos suspeitos.
Os advogados dos adolescentes investigados afirmaram que houve um “linchamento virtual” contra os jovens e seus familiares durante o caso.
Diante das irregularidades apontadas ao longo das apurações, o Ministério Público pediu o envio de cópias do processo para a Corregedoria da Polícia Civil, que deverá avaliar possíveis falhas na condução do inquérito e eventual divulgação indevida de informações sigilosas envolvendo menores de idade.
O órgão também informou que pretende abrir uma apuração específica sobre possível monetização de conteúdos falsos relacionados ao caso nas redes sociais.